Dear Cambodia
Querido Camboja,
Hoje penso no que passaste não há muito tempo.
Sofreste muito e vi que, no presente, a geração que antecede a minha, ainda pairam alguns medos.
Porém, não perdeste a pureza no trato e no pensar. Parece que estás, aos poucos, a transformar as tuas feridas em algo bom. Talvez por causa do karma. Como acreditas.
És hospitaleiro para o estrangeiro. Sorris abertamente. Mostras doçura quando falas. És curioso e cuidadoso. Senti que por vezes aches que não mereces receber atenção ou então és apenas cauteloso. Mas depois de nos conhecermos melhor, é como se fossemos familiares.
Numa viagem de seis horas de autocarro, não adormeci. Entre o livro que ia a ler e a janela ao meu lado, ficava muito tempo simplesmente a olhar para as casas coloridas com pequenos altares dourados, as ruas empoeiradas, a simplicidade das pessoas e dos monges de cabeça rapada e túnicas cor-de-laranja.
O silêncio dos templos. A tua reverência para um deus que não conheço. Isso fascina-me sempre que visito o sudeste asiático.
A arquitetura de outros tempos, que fizeram de ti o que és hoje, e que serviram de inspiração para obras cinematográficas.
O nascer do sol, primeiro cor-de-rosa, depois roxo, e por fim, amarelo. A paleta altera lentamente, sem precisar de mão humana. O som dos animais, quando está escuro, e depois quando amanhece. Tudo no seu devido lugar, no seu devido tempo.
Sê gentil com o Sr. Shay e com a sua família, que nos levou no seu tuk-tuk e falou-nos sobre si.
Senti que sou privilegiada por muitas coisas e tento sempre não olhar para as vidas que vou conhecendo com um olhar de turista, mas de viajante. A felicidade está afinal no simples. Foi aqui que pensei muito sobre isso.
Deste-me esperança. Sinto que estás a ultrapassar devagarinho e estás a crescer independente e aberto para um mundo que ainda não te conhece de verdade.
Com amor,
Pipa.